Como Fazer um Relatório Médico Eficiente para Garantir o Acesso ao Tratamento


Na prática clínica, muitos médicos se deparam com pacientes que precisam recorrer ao Poder Judiciário para ter acesso a medicamentos, exames, procedimentos ou cirurgias negados pelo SUS ou pelos planos de saúde. Nesses casos, o relatório médico torna-se peça-chave: ele é a principal base para decisões judiciais.

Por isso, é essencial saber como confeccionar um relatório técnico, ético e eficaz. Abaixo, estão os elementos indispensáveis para um relatório médico com finalidade judicial.


1. Clareza, objetividade e linguagem técnica

O relatório deve ser redigido em linguagem clínica, com termos técnicos pertinentes à especialidade, mas sem linguagem rebuscada ou genérica. Evite subjetividades (“parece estar bem”) e priorize dados observáveis e mensuráveis (“apresenta dor crônica com intensidade 8/10 segundo escala VAS”).


2. Dados de identificação completos

Inclua sempre:

3. Histórico terapêutico

É fundamental relatar:

Isso demonstra que a conduta proposta é clinicamente necessária, e não uma primeira opção sem esgotar outras possibilidades.


4. Justificativa técnica para a conduta proposta

Aqui, o médico deve justificar com base científica:

Frases como “prescrevo por ser imprescindível para evitar agravamento clínico” e “a não realização poderá gerar piora funcional irreversível” são muito relevantes.


5. Expressões-chave que não podem faltar

Algumas expressões reforçam a urgência, necessidade e justificativa clínica e são observadas positivamente por peritos e juízes:

Use-as de forma coerente ao longo do texto.


6. Evite fundamentações jurídicas

O relatório deve ser estritamente técnico, com base em evidências científicas e protocolos clínicos (como RENAME, PCDT, CONITEC, NATJUS, ANVISA, ANS etc.).
Nunca cite artigos de lei, jurisprudência ou termos jurídicos. Isso é papel do advogado.


7. Aponte se há ou não previsão no SUS ou na ANS

Mencionar, de forma clínica e técnica, que o tratamento não está disponível na RENAME ou no Rol da ANS — quando for o caso — reforça a excepcionalidade e a necessidade da via judicial.

Exemplo:

“O medicamento prescrito não consta na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) vigente, o que inviabiliza o seu acesso pelo SUS, apesar de sua comprovada eficácia no caso em questão.”


8. Atualize-se com portarias e pareceres técnicos

Consultar sites oficiais (como ANVISA, CONITEC, e-NATJUS e RENAME) pode fornecer embasamento adicional. O relatório pode mencionar que há parecer técnico favorável à indicação, o que fortalece ainda mais sua validade.


Conclusão

O relatório médico bem feito não é apenas uma formalidade — é a principal arma para garantir o acesso do paciente ao tratamento necessário. Com uma boa descrição clínica, justificativas técnicas claras e sem juridiquês, o documento tem alto potencial de gerar decisões favoráveis em tempo hábil.

Médico, você é o protagonista no cuidado com a saúde — e também pode ser o diferencial para que o direito ao tratamento se concretize.